allthingseurope:

Cologne, Germany (by Vivien J-Dora)
Lights.
"Amanhã de manhã, vamos ao Porto".
Poucas frases há da minha infância que relembro com tanto vinco como esta. Ainda que tenha boas e más memórias da mesma, ainda que me tenha tirado da cama cedo muitas vezes e me tenha feito perder os desenhos animados em fiada, a nostalgia que lhe guardo é enorme.
O Porto não era o que é hoje para mim.
Começava de manhã, que associo ao frio, à espera das velhas camionetas da Espírito Santo. Lembro-me de entrar e pensar na enormidade do veículo. Geralmente sem pagar, num Portugal mais tolerante do que o de hoje, seguia como mala ao lado da minha mãe, que com planos à risca para as manhãs do Porto, nunca me negou as (pequenas) vontades.
Chegava ao Parque das Camélias bem cedo, com o sol a despontar nos dias de sorte ou de acerto, ou com a chuva a ameaçar ou a dar os primeiros sinais de si, quando as nuvens não se ficavam pelo céu e se queriam estender à terra. Para uma criança, ou pelo menos para mim, o Parque das Camélias como era, tinha estampa de um urbanismo mal parado, de um crescimento aliciante, de uma cidade velha, mas de fascínio. Aquelas camionetas todas em atropelo, escolhendo o melhor sítio de espera a aprontarem-se para a sua fila, ainda hoje se pintam à minha frente num parque das Camélias que parecendo pouco mudado, se esvaziou de alma.
Começava com a passagem pela Batalha: A Igreja de Santo Ildefonso agigantava-se, enquanto a minha mãe vez sim vez sim me explicava que ao seu lado vivera um cinema onde uma águia de pedra agora pousava, de formas gastas e ao lado deste, outro ainda sobrevivia, com uma sala bebé e outra de arromba. Olhando à esquerda, dava sempre uma mirada ao Teatro de São João que anos mais tarde se viria a tornar confirmação de uma Beleza extrema que o exterior prometia.
Na escadaria da Igreja, o velhote dos cromos e das cadernetas, que ainda me mereceu algumas visitas com o meu pai, poisava com uma caixa de madeira cheia de pequenas figuras no seu interior.Muitas vezes pensei poder ser a minha profissão de sonho e de futuro: Ainda ando por arquivos, não posso dizer que falhei por muito.
A Batalha era como um pulmão humano. Gente cruzando-se, vida, e confluência para a maior rua do mundo: A Rua de Santa Catarina. Dizer antes, que não raras vezes ainda dava um saltinho á Rua de Santo Ildefonso, e enquanto a minha mãe via a roupa, eu ia ver uma loja com miniaturas da Burago e afins. Hoje a loja não existe e espero não ser do meu imaginário. 
A Rua Santa Catarina, não era só a maior do Mundo: Era também a coluna do Porto. Do cimo da Batalha, como formigas, afigurava-se a multidão visitante de mais uma manhã. Passava pela Livraria (latina, se não estou em erro), ainda existente, dava um salto á porfírio (ainda pequenino) e olhava a resvalar pelo Majestic, com a admiração da inocência.
Entrava na império para comer o croissant com queijo que ainda como tantas vezes, a par do meu compal de Pêssego. Ao mini-lanche da minhã mãe, juntava-se a meia de leite e um café que durante alguns anos vi como de filme: Não é todos os dias que senhores de camisa branca e de bloco de notas nos atendem.
Saia de novo para a parte de mais martírio: Experimentar roupa, ou ver a minha mãe ver roupa para os outros, num processo que ainda hoje mal assimilo. Na rua, rara era vez que não ecoava a voz de um senhor que com dois paus de madeira ainda hoje arrasta a sua figura por Santa Catarina, enquanto pede aos outros para “dar chama a alguma coisinha”.Entretanto abriu a FNAC para me apressar o tempo. A par dela abriria o Via Catarina para me estragar a façanha, embora não me lembre porque ordem.
Dali, virava para o Bolhão, dava uma vista exterior ao mercado, sentindo o cheiro a fresco dos vegetais, descia até Sá da Bandeira, passando muitas vezes numa loja de desporto num beco hoje entaipado , provavelmente com um grafitti criminoso hoje a ser limpo. Vale no entanto que a tijolada limpa tem outro encanto.
Fazia muitas vezes a visita a uma loja de tapetes dos quais não me esqueço do cheiro. Era ali que a minha mãe se encontrava com uma colega. A loja já lá não resta. Obviamente.
Voltava a mais que tempo do almoço religioso na casa da minha avó, onde haveria de passar a tarde no campo, ou a jogar a bola, a fazer das minhas. Mas estas manhãs vêm hoje ao de cima por me lembrar de um Porto diferente: Gosto deste, cheio de turistas. Mas gostava que esses mesmos turistas não tivessem que ser postos na redoma de uma zona polida (e mal), enquanto os fantasmas das pessoas que via nas manhãs do Porto, não tenham possibilidades, muitas vezes sequer de o fazer agora. Não me lembro do preço na altura, mas os míseros 4 Km da minha casa as camélias custam hoje 1,95 euros para cada lado. Julgo que com 300 escudos conseguíamos, eu e a minha mãe, fazer as duas viagens. É assim e para melhor que se quer o porto: Mais humano, mais cheio, menos distante. Para que um dia eu também possa ver uma criança aborrecer-se a fazer compras e sem saber, absorver a cidade para si.
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Gandan Temple, Ulaanbaatar, Mongolia

Oriental call.
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Little corner.
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Mosley Street II, Manchester.
by Harry Wakefield  (harrywakefield.tumblr.com)
Urban Life.
West coast.
Happy Rays on Happy days.
Nuno Rodrigues . Guimarães [23.12.12]